sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Criticando um texto de Contardo Calligaris

Tenho muita satisfação em ler os textos do Calligaris. Admiro ele, e todos que se lançam na aventura da escrita. Especialmente quem tem a árdua tarefa de escrever textos para colunas de jornais e fazem muitas vezes da escrita seu ganha pão. Cair no mesmismo, na rotina, no que é igual e saturado é sempre um risco gigantesco, onde a repetição é regra. Há, no entanto, no mundo idiota dos clichês, algumas vozes que perpassam, que transitam carregando consigo a novidade, que conseguem através do emaranhado do cotidiano, encontrar a poesia no dia a dia, abrindo uma janela para aquilo que tropeça, possibilitando um eco daquilo que preferimos recalcar. Contardo Calligaris consegue isso, e por isso o admiro. Não é, portanto, sem um pocado de sentimento de estar sendo injusto, que faço uma crítica a um texto do psicanalista. Injusto porque quem tem uma série tão grande escrita, invariavelmente desagradará algum dia o leitor. E talvez criticar um texto entre tantos maravilhosos, seja exigir o que não é humano.
Acompanho com assiduidade a coluna do Contardo na folha de São Paulo, e seus livros e textos tem me feito companhia já faz anos, e algumas vezes (poucas) discordei do escritor, mas um dos seus últimos textos intitulado Esterilidade das Eleições, me pareceu digno de um comentário.

http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/09/esterilidade-das-eleicoes.html

Diz o autor que os políticos deveriam ser cidadãos comuns e desejar ardentemente retornar a vida comum após sua passagem no mandato político, que inclusive esta ocupação política deveria não ser desejada, ao contrário, o candidato seria empurrado, meio a contragosto para o cargo público. 

Acontece que os políticos são pessoas comuns, como eu, ou como você, assim como são pessoas comuns os empresários, os religiosos, os artistas de televisão, os idolos da juventude, os músicos, os marceneiros, os vigilantes, etc. Cada qual em seu segmento, com sua particularidade, mas tem em comum o exercício de um ofício. Sou concordante com a insatisfação do autor em relação a política ser profissão, assim como sou insatisfeito que o professor, o músico, o religioso, e as vezes até mesmo o psicanalista se coloque sob subordinação do vil metal. Mas para buscar tal democracia falada pelo autor deveríamos retornar a crítica marxista que em seu manifesto já falava da corrupção das nobres funções em meros assalariados.
Calligaris afirma que o candidato não deveria ter desejo de ocupar um cargo. Ora, o que resta ao falasser sem o desejo? Como seria possível governar sem o desejo? Apesar, que de fato se trata de um impossível! Tão impossível quanto Freud alertava ao afirmar ser da ordem do impossível educar, governar e psicanalisar. Mesmo sendo impossível, não são poucos os que se aventuram  a educar, governar e psicanalisar.
Acredito que há sim, que se desejar governar, ser eleito, cuidar da coisa pública. Boa parte do resto do texto do Contardo Calligaris se ocupa em desfraldar um ataque a política em geral, caracterizando ela como de marqueteiros e pesquisas de opinião, onde os políticos (classe superior e distante do povo em geral) fariam os cidadãos de idiotas. Seriam os políticos e o resto da população, em suas mediocridades, condenados a não ter nada de novo.
Parece-me que infringe-se um rótulo estigmatizante na política, onde todo político é corrupto, e se é mal preparado é condenado pela incapacidade, e se é preparado, é condenado por ser previamente taxado de mentiroso, corrupto, ou tantos outros rótulos que se escuta dia a dia nas conversas de esquina. Há aí um peso midiático, anti democrático e faciscista, onde a mídia explicitando seu sintoma histérico esbraveja contra qualquer tipo de regulamentação a sua prática, quando na verdade o que ela busca é uma "liberdade democrática" de mentir, caluniar e difamar ao seu bel interesse, bem ao tipo editorial do jornal que aquele que admiro escreve.
Há muitos corruptos, e pessoas que nada representam no jogo democrático o povo brasileiro. No entanto há muitos políticos decentes, que lutam por seus ideais (palavrinha que as vezes parece antiquada na era do consumo) e que acabam sendo sacrificados por opiniões como a que foi apresentado por Contardo Calligaris.

Contardo, já foi um militante comunista. Assim como tantos que migraram da esquerda para a direita babando seu rancor, ele declaradamente admite suas limitações emocionais neste terreno em seu livro Cartas a Um Jovem Terapeuta. Ex militantes parecem-me muito com ex fumantes, quando deixam de ser, passam a ser muito chatos, esbravejando contra.
Outro elemento é o discurso capitalista da mídia, que no seu afã por poder, raramente apresenta em seus noticiários as belas coisas que são feitas diariamente por políticos, pois afinal isso daria crédito demais a eles. Há... se as pessoas escutassem mais a Voz do Brasil.

Há uma recompensa narcísica na crítica aos políticos. Ao elevá-los a uma condição separada ao resto do povo, e tratá-los generalizantemente como corruptos, nos livramos do fardo de dar conta daquilo que nos corrompe. Podemos então dormir tranquilos, pois somos pessoas melhores frente a estes miseráveis polítocos.

Assim nos livramos (ou pelo menos temos instantes dessa impressão) de nossa própria miséria.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Marcio.
    Você não é o primeiro psicanalista que vejo criticar Calligaris mesmo o admirando.
    No final do seu texto você fala sobre algo que a tempo tenho (re)pensado e que então me chama atenção. A respeito da condição do SUJEITO se responsabilizar pela sua vida, pelos seus atos, pelo que se é, pelo que se tem.
    Acho que é fato: as pessoas tendem a culpar o outro sempre né, para não se haver com as suas questões, porque se responsabilizar como SUJEITO FALANTE E DESEJANTE dá UM GRANDE TRABALHO (rsrs). "Se o Brasil vai mal a culpa é (SÓ) do presidente".... dizem alguns, acho que o país é feito por TODOS, inclusive pelos cidadãos. SOMOS RESPONSÁVEIS sim, pelo que o Brasil representa hoje, pois (por exemplo), se existe uma mulher na presidência temos de agradecer a todas as MULHERES e simpatizantes que realizaram o movimento FEMINISTA. Que lutaram por seus direitos, é importante lembrar que até um tempo atrás a mulher não era VISTA, ela não podia sequer votar.
    Então? pelo que somos responsáveis mesmo?
    O outro é que está errado? e eu?
    Belo texto.

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